{"id":96,"date":"2022-01-28T16:46:38","date_gmt":"2022-01-28T16:46:38","guid":{"rendered":"https:\/\/mastronardi.adv.br\/noticias\/?p=96"},"modified":"2022-01-28T16:46:38","modified_gmt":"2022-01-28T16:46:38","slug":"o-mito-de-sisifo-o-inicio-de-mais-um-ano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mastronardi.adv.br\/noticias\/index.php\/2022\/01\/28\/o-mito-de-sisifo-o-inicio-de-mais-um-ano\/","title":{"rendered":"O mito de S\u00edsifo, o in\u00edcio de mais um ano."},"content":{"rendered":"\n<p>O in\u00edcio do ano traz um sentido de expectativas renovadas, de planos para os dias que vir\u00e3o e a sensa\u00e7\u00e3o de novidade que os novos dias trazem. Entretanto, baseados nesses sentimentos que transnudem nossos pensamentos, uma \u00fanica certeza se clarifica por meio de nossas escolhas di\u00e1rias.<\/p>\n\n\n\n<p>No final de 2021 conversei com um grande amigo de minha inf\u00e2ncia. Nessas oportunidades aproveitamos cada momento para debatermos ideias, e ele me apresentou \u00e0 est\u00f3ria grega de S\u00edsifo, filho do rei \u00c9olo, considerado o mais astuto de todos os mortais.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00edsifo governou por diversos anos a cidade que ajudara a fundar, Corinto. Sua hist\u00f3ria \u00e9 conhecia por se tornar um dos maiores ofensores dos deuses gregos. Em raz\u00e3o de suas condutas, recebeu como castigo na terra dos mortos a condi\u00e7\u00e3o de empurrar uma pedra at\u00e9 o lugar mais alto da montanha, de onde ela sempre rolava de volta, fazendo-o repetir incansavelmente esse \u00e1rduo trabalho pela eternidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao analisar o mito, acredito que este nos traz o ideal de que os mortais n\u00e3o t\u00eam a liberdade dos deuses, o que os leva a se concentrarem nos afazeres da vida cotidiana, vivendo-a em sua plenitude, limitando-se a se tornarem criativos na repeti\u00e7\u00e3o e na monotonia. Entretanto, tamb\u00e9m \u00e9 poss\u00edvel considerar que a rebeldia de S\u00edsifo garantiu sua liberdade de escolha, o que traduz na genialidade e coragem para enfrentar os temidos deuses.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa dualidade de sentimentos que a est\u00f3ria de S\u00edsifo apresenta \u00e9 o cerne desse texto. Inicialmente, a puni\u00e7\u00e3o de um trabalho in\u00fatil e sem esperan\u00e7a. Por outro lado, a coragem de se fazer escolhas que eventualmente desagradem os deuses, mas satisfa\u00e7am sua inten\u00e7\u00e3o natural de agradar a si mesmo.<\/p>\n\n\n\n<p>Albert Camus aprofundou o mito de S\u00edsifo em seu livro <em>\u201cThe Myth of Sisyphus and Other Essays\u201d<\/em> (1955). O autor \u00e9 o expoente m\u00e1ximo do absurdo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 exist\u00eancia humana. Em s\u00edntese, o absurdo \u00e9 a tens\u00e3o existente no confronto do homem com o mundo. Nesse sentido, ele menciona que S\u00edsifo \u00e9 o her\u00f3i do absurdo. Tanto por causa de suas paix\u00f5es como por seu tormento. Seu desprezo pelos deuses, seu \u00f3dio \u00e0 morte e sua paix\u00e3o pela vida lhe valeram esse supl\u00edcio indiz\u00edvel no qual todo ser se empenha em n\u00e3o terminar coisa alguma. E conclui citando: <em>\u201c\u00c9 o pre\u00e7o que se paga pelas paix\u00f5es dessa terra&#8221;.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Ponderando que o homem vive sua experi\u00eancia nesse mundo em busca de uma ess\u00eancia existencial, do seu sentido mais profundo de pertencimento \u00e0 pr\u00f3pria natureza, mas encontra um mundo desconexo, inintelig\u00edvel, gerenciado por press\u00f5es maiores que a pr\u00f3pria exist\u00eancia humana, que s\u00e3o regidas por coletivos supra, a exemplo de religi\u00f5es e ideologias pol\u00edticas, esclarece, em sua obra, que o sentimento mais correto seria a revolta.<\/p>\n\n\n\n<p>Entretanto, a pr\u00f3pria est\u00f3ria de S\u00edsifo \u00e9 dualista a respeito de qual seria o sentimento mais correto, a revolta ou a aceita\u00e7\u00e3o de que a vida \u00e9 a regra do cotidiano e da monotonia. Certo \u00e9 que a vida sem um sentido acaba limitando a escala de valores, daquilo que traz prazer em empurrar a pedra at\u00e9 o alto da montanha, mesmo sabendo que ir\u00e1 rolar abaixo, vez que aquele que o faz, se tem consci\u00eancia, saber\u00e1 que ter\u00e1 for\u00e7a e energia para repetir esse ato por vezes e vezes, durante toda a eternidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse caso, o modo de execu\u00e7\u00e3o dessa \u00e1rdua tarefa \u00e9 o significado da capacidade enfrentar os desafios rotineiros, o que impede a monotonia desesperan\u00e7ar a eternidade dos dias que vir\u00e3o. A\u00ed que reside a genialidade humana em fazer as atividades rotineiras de formas diversas, em especial, de um modo que garanta uma satisfa\u00e7\u00e3o pessoal, tanto na execu\u00e7\u00e3o quanto no resultado.<\/p>\n\n\n\n<p>Albert Camus traduz esse sentimento de que <em>\u201co que conta n\u00e3o \u00e9 a melhor vida, mas a maioria dos que a vivem\u201d<\/em>. A plena aceita\u00e7\u00e3o de uma condi\u00e7\u00e3o pode trazer um sentimento libertador de que a vida ser\u00e1 assim, durante a eternidade de sua exist\u00eancia, mesmo que se reconhe\u00e7a a falta de sentido, a continuidade de execu\u00e7\u00e3o da tarefa di\u00e1ria de viver \u00e9 a consci\u00eancia necess\u00e1ria com o dever de <em>\u201cfazer o que tem que ser feito, posto que tudo est\u00e1 como t\u00eam de estar\u201d<\/em>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O in\u00edcio do ano traz um sentido de expectativas renovadas, de planos para os dias que vir\u00e3o e a sensa\u00e7\u00e3o de novidade que os novos dias trazem. Entretanto, baseados nesses sentimentos que transnudem nossos pensamentos, uma \u00fanica certeza se clarifica por meio de nossas escolhas di\u00e1rias. No final de 2021 conversei com um grande amigo&hellip; <a href=\"https:\/\/mastronardi.adv.br\/noticias\/index.php\/2022\/01\/28\/o-mito-de-sisifo-o-inicio-de-mais-um-ano\/\" class=\"more-link\">Leia mais <span class=\"screen-reader-text\">O mito de S\u00edsifo, o in\u00edcio de mais um ano.<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-96","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-uncategorized"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/mastronardi.adv.br\/noticias\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/96","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/mastronardi.adv.br\/noticias\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/mastronardi.adv.br\/noticias\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mastronardi.adv.br\/noticias\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mastronardi.adv.br\/noticias\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=96"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/mastronardi.adv.br\/noticias\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/96\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":97,"href":"https:\/\/mastronardi.adv.br\/noticias\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/96\/revisions\/97"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/mastronardi.adv.br\/noticias\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=96"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/mastronardi.adv.br\/noticias\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=96"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/mastronardi.adv.br\/noticias\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=96"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}